[ editar artigo]

Sou de Humanas e resolvi empreender. Será que o mercado tem lugar para os acadêmicos?

Sou de Humanas e resolvi empreender. Será que o mercado tem lugar para os acadêmicos?

O mundo dá muitas voltas… pode ser que algum dia, você, aquele cara “de humanas”, decida empreender. Já passou da hora da gente conquistar nosso espaço no mercado! Não perca! ;)

Neste artigo, tomo algumas coisas que aprendi com a antropologia que me ajudaram a entender e, principalmente, me posicionar no mundo corporativo.

Todo mundo sabe que a academia e o mercado não morrem de amores um pelo outro. Talvez, ainda circulem alguns mitos de que a academia é lenta e antiquada, e o mercado superficial e perverso.

Convenhamos, nem o mercado sabe muito de academia, e nem a academia do mercado. Mas também sabemos que os desafios que nos são colocados atualmente, seja na vida acadêmica ou profissional, exigem uma resposta (ou uma proposta) interdisciplinar.

E é exatamente desse encontro entre áreas distintas que eu chego até vocês: afinal, sou uma antropóloga, há 15 anos na academia, que resolveu empreender.

Entrar no mercado, para mim, nunca foi fácil ou óbvio.

Minha profissão, como várias outras, se dedicam à produção de conhecimento, à crítica ao nosso “umbigocentrismo”, e à investigação daquilo que mantém coisas, pessoas, e instituições (seja aqui, ou na Papua Nova Guiné) juntos, compartilhando das mesmas formas de construir mundos (reais, imaginados, redondos ou planos).

Investindo nessa empreitada de conhecer a alteridade (próxima ou distante), a antropologia se desenrolou através de duas frentes: o campo (estar lá, “de perto e de dentro”), e a universidade (transformando os achados de campo em texto). Parece poético, não?

Mas como ganhar dinheiro com isso fora do circuito acadêmico?

Falar que vivemos na era da informação já é senso-comum. Métricas, analytics, big data, interações, alcances impulsionados ou orgânicos… São todas maneiras de medir o que as pessoas estão fazendo do outro lado da tela.

É fundamental conhecer e entender essas ferramentas. Mas, principalmente, é preciso forjar novos métodos que dêem inteligibilidade a todos esses números. Em outras palavras, de que adianta produzir tantos dados, se não conseguimos entendê-los?

Como antropóloga, argumento que precisamos voltar a olhar para as pessoas, suas vidas, seus interesses e seus mundos, e não só transforma-los em números. Essa foi a brecha que me levou a empreender.

Atualmente trabalho com pesquisa para diferentes clientes: entendendo a experiência do aluno no ensino superior, registrando as jornadas de compra em lojas de departamentos, ou então como se faz uma comunidade virtual.

Os projetos são os mais diversos, e cada pesquisa exige uma nova metodologia.

É verdade que não existem vagas de trabalho para antropólogos no mundo corporativo, mas existe, sim, um interesse crescente em profissionais que saibam olhar para as pessoas e escutá-las, que consigam compreendê-las através de suas próprias palavras (e não de pré-noções impostas pelo pesquisador).

Áreas como o User Experience (UX), Costumer Success, Costumer Experience, e até Ux Writing estão aí para atestar que as pessoas (ou os ‘usuários’, no vocabulário nativo), estão sendo colocadas no centro dos processos.

Esses movimentos encontram ressonância não só ‘do lado de fora’ das empresas, buscando atingir os clientes finais, mas também ‘do lado de dentro’, tendo seus efeitos refletidos na cultura interna e no ambiente de trabalho.

Assim, as empresas não só têm buscado tornar seus espaços mais inclusivos e criativos, como também têm investido em metodologias de gerenciamento baseadas na interação contínua entre seus colaboradores, como as metodologias Ágil e Scrum.

Todo esse devaneio é para dizer que este modelo de pensar (d)as empresas, ou esse empreendedorismo centrado nas pessoas (sejam elas usuárias do seu serviço ou produto, ou então colaboradores no ambiente de trabalho), necessita a criação de laços responsáveis e éticos.

E como a antropologia nos ajuda nisso?

A seguir, vou destacar 5 coisas que aprendi com a antropologia que ajudam a entender e trabalhar neste cenário:

1) Mantenha as pessoas no centro.

Crie relações honestas e converse francamente. Na antropologia, dizemos que a pesquisa é feita COM as pessoas, e não SOBRE elas.

Nós aprendemos a driblar os clássicos papéis de pesquisador e pesquisado (aquele cara que está lá para ‘coletar dados’ vs. a ‘fonte dos dados’), para nos tornarmos interlocutores - a pesquisa se faz na relação, na conversa, nas horas compartilhadas...

2) Cultive as relações: o mundo é feito delas.

O ponto 1 vale não só para os usuários, mas também para o seu local de trabalho. É preciso conversar com todas as áreas, mapear os stakeholders, o ecossistema - o que seja! - para criar uma visão holística do seu campo de atuação, e assim, antecipar problemas. Co-criação é o tempo inteiro, não só naquele Sprint, tá? Invista no dia-a-dia.

3) Pare, olhe, escute e participe.

Uma das técnicas mais conhecidas de pesquisa é a tal da “observação participante”.

Crie um mindset de observação cuidadosa, escuta atenta, e troca de ideias. Bruno Latour, estudando um laboratório, percebeu que grande parte das interações (e das decisões) aconteciam quando os cientistas se juntavam ao redor da máquina de café - e não durante as reuniões.

Quais detalhes você está deixando escapar?

4) Aprenda a especular: com outras áreas, com os usuários, com tudo!

Sugira temas, aguarde as respostas, assimile a forma com que as outras pessoas aprendem, se comunicam, resolvem os desafios… Ta aí uma bela forma de aumentar seu repertório!

5) Compartilhe!

Uma das principais ferramentas de pesquisa na antropologia, é o bom e velho caderno de campo. Ao escrever ou falar com outras pessoas, estamos fazendo uma primeira sistematização das informações na nossa cabeça.

Por isso, compartilhar é, ao mesmo tempo, colocar suas ideias no mundo e testá-las. É isso que eu estou fazendo aqui, vamos juntos?

Espero que estes pontos contribuam, de alguma forma, com a construção de um olhar (ou um mindset) que tenha como ênfase as relações cotidianas.

Termino o texto inspirada por Marisa Peirano, que intitula um de seus artigos da seguinte forma: “Etnografia não é método” (2014).

Ela argumenta que a pesquisa de campo não tem hora para começar e nem acabar - é feita o tempo inteiro, em todos os acontecimentos da vida. Cada momento, no entanto, demanda uma nova forma de fazer pesquisa e, por isso mesmo, exige a reinvenção da etnografia.

A autora diz: “Somos todos inventores, inovadores. A antropologia é resultado de uma permanente recombinação intelectual.”

Com isso, quero dizer ao leitor que o mundo é o nosso campo, e olhar criticamente para as relações que nos circundam exige a permanente reinvenção de nós mesmos.

Mas isso só pode acontecer quando tomamos consciência de onde estamos, e decidimos, como bons pesquisadores, parar, olhar, escutar e participar (sempre de forma atenta) daquilo que nos envolve.

Tiemi Costa.

 

Mundo Centro Europeu
Ler matéria completa
Indicados para você