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Vale do Silício e Alemanha: minha vida intercultural

Vale do Silício e Alemanha: minha vida intercultural

Você sente que quer abraçar o mundo? Que tal ler o depoimento da Angela sobre como ela fez isso construindo sua carreira no Vale do Silício e depois na Alemanha? ;) 

 

Abraçar o mundo é o que todos, dessa nossa geração Y (também conhecida como Millennials) querem, não é mesmo? Mas a maneira como cada um de nós abraça (ou quer abraçar) o mundo pode variar bastante. Eu sempre achei que ia abraçar o mundo fazendo carreira no Brasil... deixando a minha marca em empresas renomadas do país, ganhando um bom dindin e comprando, quem sabe, um belo apartamentin antes dos trintin . 

Mas a vida é, muitas vezes, um tanto irônica e tá aí pra nos mostrar que nenhuma linha reta é tão reta assim. Que nenhum plano é tão perfeitamente executável e que a vida é, realmente, imprevisível. E que ela pode ser imprevisivelmente linda. 

Em 2015, depois de quase 3 anos de formada e de muito ralar em agências de publicidade desde a época da faculdade, achei que era era hora de estudar novamente. Resolvi começar então, em  agosto de 2015, um mestrado em Marketing Internacional na Califórnia, USA.  Buscando uma experiência única e enriquecedora, escolhi uma escola de Internacional Business focada no mercado de trabalho e também na diversidade de culturas e de backgrounds - éramos mais de 120 nacionalidades em uma única escola de negócios.

Quando comecei meu mestrado eu tinha certeza de que, ao terminá-lo, voltaria para o Brasil para continuar escrevendo minha história por lá. Mas é aí que o tal do bicho da interculturalidade começa a te morder e as coisas complicam, rapaz...

Nesse um ano em San Francisco eu não estava apenas fazendo mestrado. Eu estava morando no coração do Vale do Silício,  onde respira-se tecnologia, inovação, criatividade e diversidade em cada esquina. Nesse um ano resolvi que só estudar não era suficiente: trabalhei no Global Entrepreneurship Summit em Stanford (e tive o prazer de ver ao vivo o discurso do Obama e do Sergey Brin), fiz uma especialização em social mídia e SEO na maravilhosa Stanford (QUE lugar, meus amigos...), fiz 3 estágios,  1 meia maratona, amigos do mundo inteiro, dancei, fui no Burning Man, me mudei, me separei, me mudei de novo...

É meus amigos, foi um dos anos mais lindos e mais intensos da minha vida. E quanto mais a gente vai se entregando para as novas experiências, quanto mais a gente pula de cabeça nas novas aventuras... mais forte esse "bichinho" da interculturadade vai nos mordendo e mais difícil se torna voltar para a nossa antiga "zona de conforto".

Por mais confortável que seja voltar, mais difícil voltar se torna. Louco isso, não é mesmo? Eu diria que quando mais a gente se entrega de verdade para uma experiência de interculturalidade como essa, mais ela se torna uma experiência sem volta.

E por que uma experiência sem volta? Porque uma vez que entendemos a riqueza e a beleza que é estar em contato com essa diversidade e interculturalidade, voltar pra "bolha" fica ainda mais difícil - chega a doer, eu diria.

Assim dito, resolvi me deixar morder pelo bicho da interculturalidade mais um pouco e cancelei meus planos de voltar ao Brasil após terminar o mestrado.  "O Brasil ta lá, do mesmo jeitinho. A chance de viver mais um pouco dessa experiência, de respirar a tecnologia, diversidade e inovação de San Francisco eu não  terei novamente tão cedo", pensei. Então resolvi que queria ficar mais um ano nos EUA trabalhando na minha área.  

Agora, se foi fácil achar emprego na área de Marketing no tão balado e concorrido Vale do Silício? Claro que não, rapaz.. foi uma saga, isso sim. Após 3 meses fazendo uns bicos aqui e ali (bicos mesmo, do tipo garçonete e tal) pra pagar as contas enquanto me aplicava em tudo que era vaga possível na minha área, consegui, aos 45minutos do segundo tempo, entrar como coordenadora de marketing numa startup de bike-sharing em San Francisco. Escritório maneiro, salário legal e uma puta de uma experiência. Foi quase 1 anos de muito aprendizado, desafios, choques culturais, rebolados, choros e risadas. Rapaz, não é fácil resolver pepino de trabalho em outra língua, lidando com as leis de outro país e com pessoas de outros backgroups culturais. É extremamente desafiador, mas também extremamente enriquecedor.  Que aventura linda que foi essa. Recomendo. Recomendo mesmo.

Final de 2017, visto de trabalho terminando.. era Trump chegando ... tempo de voltar ao Brasil. Acabou-se o que era doce (será?). Voltei então para o Brasil em Novembro de 2017 pra ver qualé que é.

1 mês no Brasil e despretensiosamente começo a trabalhar novamente - dessa vez numa das maiores agências de marketing digital parceiras do Google no Brasil. Os desafios foram vários também dessa vez - incluindo me adaptar ao Brasil após 2 anos morando em San Francisco e claro, sentir um pouco essa quebra da interculturalidade. 

Mas em agosto de 2018 o bichinho da interculturalidade me mordeu de novo e não consegui resistir.  Resolvi me mudar e começar o rebolado em outro país, de novo.  Só que o país da vez foi outro - a tal da Alemanha. 

Desde que cheguei aqui, há 6 meses, meus dias são divididos entre aula de alemão e trabalho (no momento trabalho apenas meio período e não exatamente na área de marketing - estou trabalhando na Universidade FH Aachen como professora assistente). Rapaz, que choque cultural. Que língua difícil. Que povo mais fechado e mal humorado. Que comida mais ruim. Que inverno mais cinzento. Tudo isso te faz lembrar que não importa onde, começos são sempre difíceis.

Como estou me sentindo até então ? As vezes me bate uma angústia  e um desespero de pensar que estou com quase 28 anos e que minha carreira acabou não seguindo a linha reta que eu planejava. De que parei de trabalhar full time com marketing para poder me dedicar ao aprendizado de uma nova língua. De que novamente em breve vou ter que dar a cara a tapa pra procurar um emprego legal na minha área já sabendo o quanto isso é difícil quando se é um estrangeiro. Isso tudo enquanto amigos e familiares vão alcançando seus sucessos e sonhos profissionais aí no Brasil. 

Mas aí eu respiro fundo e lembro que cada caminho é um caminho e que nem o Trainee mais foda do Brasil poderia me ensinar tudo que aprendi sobre culturas, línguas, pessoas, sobre interculturalidade.

Lembro também que a gente perde mas também ganha. A gente perde de estar perto da família e dos amigos, perde de fazer uma carreira de sucesso e de maneira linear, perde de crescer PROFISSIONALMENTE mais rápido. Mas a gente ganha tanta coisa: amigos no mundo inteiro, fluência em 3 línguas, crescimento PESSOAL...

 

Rapaz, a gente se fortalece como ninguém quando mora fora. A gente aprende a ser mais humilde. A gente aprende a respeitar mais as diferenças. A gente aprende que as pequenas batalhas do dia a dia são mais difíceis do que imaginávamos mas que venceremos. A gente aprende a ser mais humano, a ser mais solidário, a julgar menos.

Mas te prometo que não é fácil e que todo dia é uma mistura de sentimentos. As vezes bate aquele medo de ter feito a escolha errada, aquele arrependimento momentâneo... mas na maioria das vezes bate aquele orgulho e aquela vontade de seguir em frente. Bate aquela vontade de continuar deixando pra trás tudo que a gente tinha como certo e de ir abraçando cada vez mais esse mundão, sem medo de cair e sempre de coração aberto pra aprender e pra crescer.  E esse aprendizado, essa experiência intercultural, meu irmão, isso não tem preço. Isso vale mais do que tu imaginas no seu currículo.

Portante, um brinde à interculturalidade. E se você, assim como eu, tiver sido mordido pelo bichicho da interculturalidade (ou quiser ser), se deixe morder...  se deixe levar. Te prometo que vai dar tudo certo. Pelo menos tem dado pra mim nesses quase 3 anos!

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